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Cacá, da BlackRock: ESG dá retorno e protege contra a volatilidade

Investir em ESG dá o mesmo retorno que carteiras tradicionais, além de proteger contra a volatilidade. É o que pensa o chairman do braço brasileiro da BlackRock, Carlos Takahashi, mais conhecido como “Cacá”. Em entrevista exclusiva ao InvestNews, ele defende que os investimentos atrelados a boas práticas ambientais, sociais e de governança sofrem menos com as oscilações do mercado.

“O retorno [de investimentos ESG] é 100% compatível com uma cesta tradicional, mas tem uma resiliência muito maior. Isso pode ajudar o investidor não só a obter bons retornos, mas também a dormir mais tranquilo”, explica, com base em um experimento conduzido pela maior gestora do mundo, hoje com em patrimônio de US$ 9,5 trilhões em ativos. Não por acaso, o termo ESG ficou mais conhecido no mercado financeiro.

Em 2020, a BlackRock, que estreou uma coluna mensal no InvestNews em dezembro, se comprometeu publicamente a colocar a questão ambiental em sua cartilha. Cacá fala dos desafios dessa transição para uma economia verde dentro da gestora, que se comprometeu a exigir das empresas que compõe seus índices informações sobre como produzem energia mais limpa.

Cacá assumiu o cargo de chairman da BlackRock no Brasil em julho, após ter ficado por mais de dois anos como CEO da gestora — posto hoje ocupado por Karen Saade. Agora, ele é responsável por relacionamentos institucionais, assuntos regulatórios e de mercado, além de ser membro do Comitê Executivo Regional da América Latina e vice-presidente da da Anbima.

Do alto de sua trajetória de quatro décadas no mercado financeiro (Cacá trabalhou por três delas no Banco do Brasil), o executivo da maior gestora do mundo pede licença para “bater na tecla” da diversificação quando o assunto é aconselhar o investidor. “Esse é um grande antídoto para se proteger de períodos mais complexos, de maior volatilidade, e a grande vitamina para dar um ‘boost’ em seu portfólio no longo prazo”, diz.

Em conversa ao IN$, Takahashi fala também sobre a chegada dos BDRs de ETFs à bolsa brasileira, aponta que a chegada dos criptoativos ao mercado financeiro é um “assunto a ser estudado com profundidade” e aponta os melhores caminhos para o investidor se proteger da volatilidade em 2022. Confira a entrevista completa:

InvestNews – No ano passado, o cofundador da BlackRock, Larry Fink, escreveu uma carta firmando uma série de compromissos para tornar as práticas ESG o centro das atividades da gestora. Um deles seria o de exigir das empresas explicações sobre como produzem energia mais limpa. De lá pra cá, o que foi feito?

Cacá – Primeiro, de fato as cartas do nosso fundador, Larry Fink, se tornaram referência no mercado quando se fala em investimentos sustentáveis e ESG. Em 2020, assumimos esse compromisso. Para isso, assumimos compromissos adicionais. Um deles, colocar o processo de ESG em todos os nossos fundos ativos e fazer também um processo de engajamento em relação às empresas que fazem parte dos nossos fundos passivos, aquelas que seguem o índice no sentido de adotarem práticas ESG, efetivamente e também partirem para a adoção das estratégias de transição para uma energia mais limpa, que proporcione a necessária redução de emissões, para chegar a um saldo zero até 2050.

Claro que, durante todo esse tempo, temos feito toda uma série de engajamentos por meio da nossa equipe de governança, que conversa com as empresas e que dá as orientações, faz as recomendações e acompanha efetivamente onde investimos. Continuamos mais engajados do que nunca e, agora, o grande tema sem dúvida nenhuma é a transição para uma energia mais limpa, a questão da “climate change net zero (carbono zero)”, que é conseguir chegar à redução que precisamos aqui. Isso traz, claro, uma série de riscos como investimento. Por outro lado, também traz uma série de oportunidades.

IN$ – Investimentos ligados a ESG ganharam espaço em 2021, mas no Brasil ainda há poucos produtos disponíveis. Um deles é o ETF ECOO11, da própria Blackrock, que replica o índice de carbono. Como melhorar os critérios de inclusão de empresas sustentáveis neste tipo de índice?

Cacá – Falando em mercado local, é bom comentar que esse assunto cresceu de forma exponencial nos últimos anos no mundo todo. Quando olhamos para Europa e EUA, vemos um volume muito relevante de investidores procurando fundos de ESG na nossa base de dados. Aqui no Brasil não é muito diferente, mas ainda é uma parcela muito pequena se comparada ao resto do mercado. Hoje na Europa, por exemplo, praticamente mais de 30% dos fluxos de toda a indústria têm acontecido em investimentos sustentáveis.

Aqui no Brasil ainda não. Temos algumas alternativas no mercado, alguns índices como o que você falou, o ECOO11, que segue o índice de eficiência de carbono (ICO2). Temos também o ISE, Índice de Sustentabilidade da B3, mas o ponto é que ainda faltam informações, falta educação e uma série de coisas para essa indústria se desenvolver.

Mas uma notícia boa é que, desde que lançamos os BDRs (Brazilian Depositary Receipts) por meio do banco B3, trazendo os nossos ETFs (fundos de índice) globais por meio deles, nesse período inicial que completou um ano em outubro, o BDR que mais volume tem e que também está tendo em nível de negociação excepcional é exatamente um ETF ESG.

Isso é um bom sinal. De fato, se você tem um bom produto, uma boa alternativa de investimento, tem demanda já dos investidores. Essa é a boa notícia. Trazer por meio dos BDRs um ETF global que já tem um histórico e um índice bastante consistente e está aí há um bom tempo nos mercados lá fora, isso também ajuda muito o investidor a ter confiança em ir para um investimento dessa natureza.

IN$ – Existem estudos ou evidências de que as práticas ESG já refletem no desempenho das carteiras?

Cacá – Esse é um ponto essencial nessa conversa. Quando falamos em ESG, falamos em adotar boas práticas ambientais, sociais e de governança para obter bons resultados nos investimentos e, especialmente, no longo prazo. Uma grande discussão do mercado por um bom tempo é como fica o retorno. Isso dá retorno mesmo? Recentemente, vários estudos e um muito bacana que foi feito aqui na BlackRock diz respeito a comparar uma cesta de investimentos de um índice tradicional e um índice com os critérios ESG incorporados. 

É interessante porque pegamos essa comparação exatamente quando bateu a pandemia em 2020. O índice se comportou tanto sob a perspectiva de retorno, ou seja, o retorno é 100% compatível com uma cesta tradicional, mas tem uma resiliência maior. Ou seja, ele sofre menos com a famosa volatilidade que se fala tanto no mercado e que tira o sono dos investidores.

Será que isso só aconteceu nessa janela da pandemia? Fizemos essa mesma experiência em duas janelas para trás, e nas duas, o comportamento da cesta ESG foi também o mesmo que vimos em 2020. Ou seja, via de regra, o investimento em ESG tem um retorno compatível com investimento tradicional e uma resiliência muito maior que os portfólios tradicionais. Isso pode ajudar o investidor não só a obter bons retornos, mas a dormir mais tranquilo também.

IN$ – Desde outubro de 2020, pessoas físicas passaram a investir em BDRs na B3. O número de investidores chegou a 475 mil em novembro de 2021. Isso possibilitou a chegada de BDRs de ETFs. Só na BlackRock, há uma oferta de 74 produtos desse tipo, 65 deles para pessoa física na B3. O que isso representa em ganho para o pequeno investidor?

Cacá – Os ETFs permitem investir de forma ampla em índices da bolsa, como o IVV, que replica o S&P 500. Ou seja, o investidor está aqui na bolsa local investindo nas 500 maiores empresas de Nova York. O segundo ponto é que o investimento por meio do ETF traz liquidez, eficiência e transparência de custo. É um custo honesto, sem discutir se é alto ou baixo, o que é importante para o investidor. Sobre os BDRs, a evolução regulatória que permitiu o acesso pelas pessoas físicas permitiu que a gente trouxesse um pacote grande de opções de ETFs globais para o Brasil. 

A grande vantagem, primeiro, são as que dizem respeito ao ETF. Segundo, quando se vai para o mercado global, apesar de nossa bolsa ter uma quantidade razoável de empresas listadas, estamos falando algo perto de 400. No mercado americano, elas passam de 2.500. Na bolsa de Tóquio, o número sobe para 2.700. Em Xangai, cerca de 2.800. No Dax, da Alemanha, também tem mais de 2 mil empresas listadas. Isso traz uma possibilidade de diversificação muito mais ampla. 

Fora a diversificação em quantidade, você vê nas bolsas lá fora setores diversificados. Quando se fala em tecnologia, por exemplo, ainda temos poucas opções aqui. Quando se fala em health care e biotecnologia, não tem a opção aqui. Mesmo quando se fala em mercado financeiro, temos uma coisa muito concentrada aqui, como bancos. Lá fora, você encontra muitas outras opções de empresas que fazem parte do sistema financeiro.

Isso traz uma diversidade de setores. E por que não diversificar geograficamente? Tem discussões sobre China, recuperação econômica pós-covid em vários níveis e partes do mundo. E outros temas, como ouro e prata, que você pode acessar por um BDR de ETF. Tudo isso dá um leque de opções para o investidor incrível, de uma forma simples, eficiente, baixo custo e transparência de preços.

IN$ – Além dos ETFs, tem espaço para popularizar investimentos no Brasil mais alternativos, fora da bolsa?

Cacá – A BlackRock, apesar de ser muito conhecida pelos ETFs, também faz a gestão de uma quantidade super relevante do que chamamos de investimentos alternativos, muito mais próximos da economia real. Isso já fazemos globalmente e temos trazido ao Brasil opções dessa natureza. Tem as estruturas de feeder funds, os fundos abertos localmente que trazem esses fundos de fora. Você tem tanto a exposição global quanto estratégias específicas que pode capturar pelas opções. Tem uma diversidade de opções.

O ponto relevante é permitir a diversificação por investidor de forma simples e eficiente e por meio de veículos simples e eficientes como os BDRs. Outro ponto importante também é permitir que essa diversificação seja global, porque hoje vemos que eventualmente quando as coisas não vão bem aqui podem ir bem lá fora ou algum lugar do mundo e isso obviamente vai ajudar muito o portfólio dos investidores.

IN$ – Como a BlackRock enxerga a chegada de ETFs de criptoativos em 2021, tanto na B3 quanto em bolsas internacionais?

Cacá – A BlackRock é uma casa que gosta muito de estudar tudo, sob todas as perspectivas. Sempre preservamos, antes de mais nada, que o investidor tenha uma boa experiência, esse é o objetivo, ajudar o bem-estar financeiro do investidor, sobretudo no longo prazo. A gestora também é muito zelosa com as questões de risco, ela nasceu numa perspectiva de tratar o risco de uma forma diferenciada para trazer uma boa experiência ao investidor. Essas alternativas todas estão dentro dessa perspectivas, sempre, de fazer uma boa análise a respeito do tema.

Com certeza, como tudo que é novo, a gente nunca pode desprezar. Muito pelo contrário, temos que olhar com muita atenção, mas tem que estudar com muita profundidade dentro dessas perspectivas que te falei. Afinal, algo só se torna bem sucedido no longo prazo na medida em que as pessoas tenham efetivamente uma boa experiência.

IN$ – Este ano, os juros voltaram a subir no Brasil, contrariando expectativas de um ano atrás. Vimos inflação de dois dígitos e o impasse fiscal no radar. Como você avalia o desempenho da equipe econômica este ano e o que esperar?

Cacá – Os desafios não foram pequenos para nenhum efeito. O mundo inteiro enfrentou desafio único, com novos temas surgindo em decorrência de dois fatores, a enorme liquidez colocada no mercado globalmente, e ao mesmo tempo as assimetrias, ou seja, as diferenças de intensidade e velocidade da recuperação econômica. E agora, mais recentemente, vimos as consequências de uma certa ruptura na cadeia de suprimentos, trazendo uma perspectiva inflacionária globalmente.

Tem sido desafiador para todas as equipes e para o Brasil não tem sido diferente. Claro que ainda vários temas não estão devidamente solucionados, como a pandemia da covid, surgem novas cepas, não sabemos ainda quanto elas podem afetar as economias e temos um ambiente que traz toda a volatilidade. Isso é comum em vários mercados, não só no Brasil, quando se tem perspectiva de mudança de governo, eleições e assim por diante. O importante é o investidor estar atento a tudo isso, olhando as oportunidades e pensar formas de proteger seu portfólio para eventos contrários que possam vir.

IN$ – Falando nisso, teremos eleições no Brasil no próximo ano, historicamente um período de maior volatilidade. No que o investidor deve ficar de olho em 2022?

Cacá – Por mais que a gente repita com muita frequência, a palavra é diversificar, definitivamente. Olhar o portfólio de uma forma mais ampla. E ter um planejamento financeiro bem estruturado. O que vou precisar no curto prazo? O que posso deixar para o médio prazo e reservar para o longo prazo? Quais meus objetivos? Essas respostas todas, muito relacionadas com o suitability, vão dar as indicações necessárias para passar bem por esses momentos.

Cada vez mais, a gente precisa fomentar a educação financeira e a informação, para que o investidor tenha cada vez mais esse olhar de planejamento e poder fazer as alocações necessárias dentro de uma perspectiva mais ampla. Esse é um grande antídoto para se proteger de períodos mais complexos de maior volatilidade. E a grande vitamina para dar um “boost” no seu portfólio no longo prazo. São os dois olhares que a diversificação pode trazer. E a possibilidade da diversificação global pode ajudar a passar por momentos como o que antevemos para o ano que vem.

IN$ – Levando em conta as projeções para o ano que vem, onde devem estar as melhores oportunidades para investir em 2022?

Cacá – O Axel Christensen, diretor de estratégia de investimentos para a América Latina, deu uns bons insights a respeito disso em sua coluna no IN$. Eu insisto bastante na questão da diversificação. Você tem essas possibilidades todas para proteger seu portfólio e alcançar boas oportunidades. Esse é o grande caminho que a gente tem que seguir para passar por períodos como esse que vemos adiante.