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Chance de superar recorde de 64 IPOs em 2021 é pequena, dizem especialistas

As perspectivas para o mercado de capitais em 2021 melhoraram após a retomada gradual da economia no final de 2020, com analistas indicando a bolsa como melhor opção para investir. Segundo dados da B3, 45 companhias já fizeram IPOs (sigla para oferta pública inicial de ações, na tradução do inglês) de janeiro a setembro de 2021. Apesar do fluxo positivo, especialistas acreditam que o ritmo de empresas abrindo capital deve ser mais lento nos últimos meses do ano.

No ano até agosto, 44 empresas abriram capital na B3, movimentando R$ 64,1 bilhões. Só no primeiro trimestre, foram 15. O mercado chegou a especular se o “boom” de IPOs em 2021 ultrapassaria o recorde de 2007, que somou 64 IPOs e arrecadou R$ 55,6 bilhões em ofertas primária e secundária. 

A produtora de insumos agrícolas Vittia (VITT3) é a companhia mais recente a estrear na bolsa. Já a rede de academias Bluefit, que estrearia nesta terça-feira (28), adiou os planos de última hora.

Boom de IPOs em 2021

O ano de 2021 foi marcado pelo “bombardeio” de IPOs, influenciado pela retomada da economia e avanço da vacinação, e alavancado por um desempenho um pouco mais positivo da atividade. A indústria chegou a crescer 11% no ano, seguida por serviços, com 10,7%, e comércio, com 6,6%. 

Segundo o consultor da CVM e investidor profissional Ricardo Schweitzer, esse cenário é o mais forte desde 2007 e ocorreu devido alguns fatores.

“De um lado, havia muita oportunidade de abertura de capital, relacionada à ampla disponibilidade de capital. De outro, empresas que ou estavam em setores que conseguiram ‘colar’ um discurso que cabia no momento, como as techs de e-commerce, ou que iriam à falência ou faziam IPO”, diz o especialista.

Apesar do aumento em 2021, o movimento de ofertas públicas iniciais já mostrava um crescimento desde 2019.

Segundo Gustavo Secaf Rebello, sócio da Machado Meyer e especialista em direito dos negócios que atua na área de mercado de capitais, uma das razões pra 2021 ter sido mais forte foi um movimento que começou no meio para o fim do terceiro trimestre de 2019, com um saldo enorme de operações no fim de 2020 para ocorrer e que já estavam hiper engatilhadas.

“Em 2020, surgiu um grande depósito de empresas que tentaram ir ao mercado e não conseguiram e que, por alguma razão, ainda tinham esse interesse. Então já começamos 2021 muito forte”, comenta.

Confira abaixo um gráfico do número total de IPOs por ano, entre 2007 e 2021:

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IPOs em 2021

Segundo dados da CVM, até 26 de setembro, 45 empresas já haviam realizado seus IPOs e 54 estavam em análise, contabilizando ofertas primárias e secundárias. Confira abaixo a tabela de IPOs em 2021:

EMPRESASETOR  CÓDIGO DE NEGOCIAÇÃODATA DE INÍCIO DAS NEGOCIAÇÕESHBR REALTYfinanceiroHBRE321/01/21VAMOSconsumo cíclicoVAMO329/01/21ESPACOLASERconsumo cíclicoESPA301/02/21INTELBRAStecnologia da informaçãoINTB304/02/21MOSAICOtecnologia da informaçãoMOSI305/02/21MOBLYtecnologia da informaçãoMBLY305/02/21JALLESMACHADO consumo não cíclicoJALL308/02/21FOCUS ONutilidade públicaPOWE308/02/21CRUZEIRO SULconsumo cíclicoCSED311/02/21OCEANPACTpetróleo, gás e biocombustíveisOPCT312/02/21ORIZONutilidade públicaORVR317/02/21ELETROMIDIAcomunicaçõesELMD317/02/21BEMOBI TECHtecnologia da informaçãoBMOB310/02/21CSN MINERACAOmateriais básicosCMIN318/02/21WESTWINGtecnologia da informaçãoWEST310/02/21ALLIEDconsumo cíclicoALLIED12/04/21MATER DEIsaúdeMATD316/04/21BLAUsaúdeBLAU319/04/21GPSbens industriaisGGPS326/04/21BOA SAFRAconsumo não cíclicoSOJA329/04/21CAIXA SEGURIDADE²financeiroCXSE329/04/21MODALMAISfinanceiroMODL330/04/21INFRACOMMtecnologia da informaçãoIFCM304/05/21PETRORECSApetróleo, gás e biocombustíveisRECV305/05/21GETNINJAStecnologia da informaçãoNINJ313/05/21G2D INVESTfinanceiroG2DI3314/05/21DOTZconsumo cíclicoDOTZ331/05/21BR PARTNERSfinanceiroBRBI1121/06/213TENTOSconsumo não cíclico TTEN312/07/21WDC NETWORKStecnologia da informaçãoLVTC326/07/21SMART FITconsumo cíclicoSMFT314/07/21MULTILASERtecnologia da informaçãoMLAS322/07/21DESKTOP²tecnologia da informaçãoDESK321/07/21CBAmateriais básicosCBAV315/07/21AGROGALAXYconsumo não cíclicoAGXY326/07/21UNIFIQUEcomunicaçõesFIQE327/07/21ARMACbens industriaisARML328/07/21TCtecnologia da informaçãoTRAD328/07/21BRISANETcomunicaçõesBRIT329/07/21CLEARSALEfinanceiroCLSA330/07/21VIVEOsaúdeVVEO309/08/21RAIZEN²petróleo, gás e biocombustíveisRAIZ404/08/21ONCOCLINICAS²saúdeONCO310/08/21KORA SAUDE²saúdeKRSA313/08/21VITTIAmateriais básicosVITT302/09/21

Sobre o desempenho dos setores, Ricardo Schweitzer diz que, na verdade, algumas empresas realmente relacionadas à tecnologia, como a LocaWeb (LWSA3), tiveram um bom desempenho.

“Temos ainda outros casos pontuais, com abertura de capital de empresas que já faziam parte de uma holding com capital aberto, como é o caso da Vamos (VAMO3)”.

Segundo a B3, o número mais expressivo de IPOs em 2021 vem do setor de tecnologia, seguido pelo financeiro e consumo cíclico. Confira abaixo o gráfico de IPOs por setor, conforme a classificação da B3:

imagem29-09-2021-11-09-26 * Consumo cíclico: representam empresas cujas vendas são afetadas pelas variáveis econômicas como a inflação. Ex: Magalu, atuante do varejo que possui seus produtos influenciados pela alta do IPCA. * Consumo não-cíclico: empresas que não têm seu desempenho tão afetado pelos ciclos da economia.

“Dos setores que ainda tentam acessar o mercado, há muitas empresas do setor financeiro e de tecnologia, as fintechs, buscando esse espaço. No agronegócio, também tivemos várias operações. Mas, na minha opinião, não houve um setor ‘queridinho’. Foi mais uma mistura entre o momento em que ocorreu e uma questão de valuation. A grande ciência está na determinação do preço”, diz Gustavo.

Valuation é o nome em inglês para o processo de determinação do valor de uma empresa. Essa é a metodologia que permite estimar o quanto o investidor deve pagar por determinado ativo.

Para os próximos meses, o analista e colunista do InvestNews, Ricardo, acredita que o mercado deve dar mais crédito às empresas do setor de construção civil.

“Com relação ao potencial de valorização de capital, especificamente, tivemos um número muito significativo de abertura de capital nos últimos dois anos de empresas de construção civil. Não que eu esteja super otimista com o setor, mas acho que casos pontuais vão surpreender positivamente e estão sendo tratados indiscriminadamente pelo mercado”, diz Ricardo.

Desistências de IPOs

Apesar do maior número de IPOs em 2021, houve um alto número de desistências por parte das companhias na fila para abrir capital. Cerca de 97 desistiram de suas ofertas públicas iniciais, como as empresas Rio Energy e Kalunga, e 7 dos pedidos de listagem foram indeferidos, segundo dados da CVM.

Especialistas da área acreditam que o momento atual não é mais propício aos IPOs, pois há muita volatilidade no mercado.

“Nos últimos meses, a bolsa tem estado em queda, e nesse caso temos nomes já muito bem conhecidos pelas pessoas que não estão mais tão caros quanto antes. Dessa forma, ficamos reticentes sobre a pertinência de apostar em empresas desconhecidas, em vez de simplesmente comprar Itaú (ITUB4), por exemplo”, pondera Scheitzer.

Já Gustavo Rebello menciona o fato de que o mercado não é capaz de absorver todo o volume de negociações.

“Acho que por termos um mercado ainda em desenvolvimento e janelas de oportunidade muito curtas, quando acontece de ter todos os fatores convergindo para um IPO, todos querem participar.” Segundo ele, o mercado não está pronto para tudo isso. “Muitos IPOs não foram absorvidos porque não teve espaço e eventualmente algumas empresas não estavam naquele ponto em que o investidor se sente confortável para dar um valuation um pouco melhor”.

Ano dos recordes

Os especialistas não estão confiantes quanto ao aumento do número de IPOs até o final de 2021. Apesar do volume financeiro de mais de R$ 64 bilhões, a chance de ultrapassar o recorde do número de 64 IPOs que ocorreram em 2007 é pequena.

“É difícil, mas não é impossível. Eu sou reticente sobre as condições de mercado, e na minha opinião nem essas 45 deveriam ter saído. Não acho impossível, mas prefiro apostar que não. Precisaríamos de um ritmo de abertura de capital muito intenso até o final do ano, e 2007 foi um bom ano do início ao fim, e neste ano, no meio do caminho, acabamos tendo um pouco de dificuldade”, declara Ricardo.

Gustavo acredita que não será possível chegar neste número. “Acho difícil. Na fila tem alguns, mas logo entramos na janela do 3º trimestre, que é uma janela que se estende até o ano que vem. Então depende muito de como vão evoluir as questões políticas e o próprio comportamento da covid-19 com a abertura das empresas, que a cada dia tem sido mais forte. Acho que não chegamos a 64. Talvez por volta de 52 a 55”.