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Com IPCA acima 10% em 12 meses, risco de estagflação fica mais forte? Entenda

Inflação em alta e crescimento econômico estagnado. Especialistas alertam que essa é a combinação que muitos países devem enfrentar nos próximos meses – incluindo o Brasil. Por aqui, a inflação já estourou o teto da meta do Banco Central e a recuperação do Produto Interno Bruto (PIB) perdeu força, acendendo então o alerta sobre risco de estagflação – fenômeno caracterizado por crescimento econômico baixo e inflação em alta. Ainda assim, nem todos os economistas concordam que esse cenário possa perdurar no Brasil.

Segundo dados divulgados nesta sexta-feira (8), o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou 10,25% em 12 meses até setembro, mas marca a primeira vez em dois dígitos desde fevereiro de 2016.

É preocupante“, diz Gustavo Cruz, economista e estrategista da RB Investimentos sobre os números da inflação. “Aquele cenário que a gente traçava no começo do ano, de que o IPCA seria forte no meio do ano e depois iria arrefecendo a longo do segundo semestre, não está se concretizando”, comenta.

Mesmo assim, ele não acredita que o Brasil esteja chegando a um cenário de estagflação. “O Brasil tem muitos problemas, isso é inegável, mas de qualquer forma são problemas que têm soluções relativamente simples. A questão é mobilização, que é muito complexo lidar com disputa de interesses”, afirma ele.

“É bem diferente, por exemplo, do Japão, que há anos que os caras tentam crescer e não conseguem sair desse cenário de estagflação. Lá ninguém sabe muito o que fazer. Eles estão vivendo um envelhecimento da população. Esse cenário do Brasil parece ser algo muito mais momentâneo do que algo mais de longo prazo. A gente não virou o Japão“, analisa Cruz.

Já a especialista Leila Pellegrino, coordenadora do curso de Administração da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas, vê sinais de estagflação no cenário brasileiro. “Estagflação é a combinação de uma economia que está com baixo ou inexpressivo crescimento junto com elevadas taxas de inflação ou processo de aceleração inflacionária. E o Brasil neste momento está combinado com esse diagnóstico”, diz a professora.

“Embora a gente até tenha uma perspectiva de retomada das atividades e melhora dos indicadores da pandemia, o processo de aceleração inflacionária chama atenção”, comenta ainda.

PIB

Para André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a possibilidade de o Brasil “bater na porta da estagflação” neste ano é real, mesmo com a previsão de crescimento de cerca de 5% no PIB em 2021. “O PIB é medido trimestralmente. Pode ser que em uma dessas medidas haja um pequeno encolhimento e, com a inflação ainda alta, a gente pode bater na porta da estagflação”, afirma ele.

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Considerado o indicador de inflação oficial do Brasil, o IPCA já se aproxima dos 10% no acumulado em 12 meses. No mercado, a expectativa para a inflação só aumenta há diversas semanas. A projeção de analistas atualmente é de que o índice termine 2021 em 8,51% – bem distante do centro da meta do Banco Central, de 3,75%.

“Inflação boa é inflação na meta. A meta para esse ano era 3,75%, mas, por força de tudo que aconteceu, ficou muito difícil cumprir”, comenta Braz.

Estagflação ou reflação?

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Entre os que discordam da ideia de que o Brasil vive um cenário de estagflação, o argumento é de que o processo é, na verdade, de reflação – fenômeno caracterizado por alta de preços em meio à retomada da economia depois de uma crise.

“Seria uma inflação que acontece num momento de atividade econômica retomando. E, como a gente não está retomando a atividade de uma forma sustentável, eu acho que não cabe, não caracteriza o cenário no momento”, analisa Pellegrino.

Taxa de juros: remédio ou veneno para estagflação?

O economista André Braz aponta que o próprio remédio utilizado pelo Banco Central para combater a alta dos preços – o aumento da taxa Selic – ajuda a criar um cenário de crescimento econômico baixo. Isso porque a elevação dos juros torna a tomada de crédito mais cara, desestimulando os gastos de empresas e famílias, esfriando a economia.

“Se as pessoas não têm dinheiro para gastar e as empresas estão tímidas em tomar dinheiro emprestado para investir na atividade produtiva, a atividade econômica encolhe”, explica.

Outra discussão é sobre a origem da pressão inflacionária. Isso porque, enquanto juros mais altos tendem a reduzir a demanda, especialistas apontam que a inflação atualmente é resultado de pressão na oferta. 

Braz aponta, por exemplo, a situação ainda não estabilizada da cadeia produtiva após diversas paralisações. Diversos segmentos ainda lidam com falta de material. Um exemplo é o setor automotivo, que enfrenta escassez de semicondutores e não consegue produzir veículos novos. Como resultado, o preço de carros disparou. 

imagem09-10-2021-23-10-25Fábrica da Gree em Wuhan. China 16/08/ 2021. China Daily via REUTERS

A conta da inflação tem ainda o encarecimento das commodities, que mexeu com os preços de toda a cadeia produtiva, enquanto a crise hídrica fez subir os preços da energia. 

Outro fator é o câmbio. O aumento repentino dos gastos públicos para combater a doença provocou uma piora no déficit público – que já não andava bem. Com as contas públicas ainda mais fragilizadas, o real perdeu força e sofreu uma desvalorização mais aguda que outras moedas. O Brasil, então, sentiu a inflação mais forte que o resto do mundo.

“A perda de valor do real que a gente está vivendo agrava de forma considerável essa pressão sobre o processo inflacionário, além, obviamente, de algumas condições internacionais, resultado da crise da pandemia”, comenta Pellegrino.

A especialista afirma que, para combater a inflação no momento, seria necessário “promover a confiança no mercado brasileiro para que a gente tenha câmbio que nos favoreça”. 

O passado recente da inflação

Não é a primeira vez que o Brasil enfrenta um cenário de inflação elevada e dificuldade de expansão do PIB nos últimos anos. O exemplo recente é a crise iniciada em 2014.

Naquele ano, a inflação ficou em 6,41% – dentro da meta do BC, que era de 4,5%, mas com tolerância até 6,5%. Em 2015, os preços passaram a subir com força maior. Com a mesma meta do BC, o IPCA fechou em 10,67%. Ao mesmo tempo, a economia patinava: em 2014, o PIB subiu apenas 0,5%, e nos dois anos seguintes caiu 3,5% e 3,3%. 

Comparando os números, a professora Leila Pellegrino afirma que a situação em 2021 é mais delicada. “Naquele momento, a gente tinha uma economia que vinha se aquecendo bastante. Nem o processo inflacionário ganhou o vulto que ganhou neste momento e nem a perda de dinamismo e resultados econômicos eram tão agravados como a gente está vendo agora.”

“A gente tem uma pressão inflacionária que é expressiva e incompatível com o ritmo de atividade econômica. Viemos de uma crise da pandemia com impactos importantes, com reflexos no crescimento muito expressivos”, diz Pellegrino. 

Hiperinflação

Apesar das preocupações sobre estagflação agora, a situação da alta de preços em 2021 não chega nem perto do descontrole total dos anos de hiperinflação. 

Hiperinflação é o descontrole máximo dos preços na economia, com valores reajustados para cima diariamente e em massa. O Brasil viveu duros momentos de hiperinflação durante as décadas de 80 e 90, antes da criação do Plano Real. Desde 1994, o país tem uma inflação mais controlada, que permite aos brasileiros certa segurança e previsibilidade para planos no futuro, além de orientar melhor os negócios e estabilizar a atividade econômica.

Segundo André Braz, não há risco de vivermos agora um cenário de hiperinflação. O que acontece hoje é a junção de fatores responsáveis pelo aumento momentâneo dos preços.

O economista afirma que o que vivemos é uma fase de preços mais persistentes, que não antecipa nenhum descontrole generalizado. “É uma questão pontual que está sendo bem acompanhada pela autoridade monetária, que, através do aumento de juros, já tenta fazer com que a inflação esteja dentro da meta no ano que vem”, diz. 

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