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Como as manifestações de 7 de setembro podem impactar o dólar e a bolsa

Em meio às incertezas com o cenário interno, expectativas em relação a manifestações de 7 de setembro têm sido um fator a mais no balanço de risco do mercado financeiro nos últimos dias. Apesar das dúvidas, analistas ouvidos pelo InvestNews não acreditam que os protestos devem impactar tão diretamente o dólar e a bolsa de valores num primeiro momento. Mas, ainda assim, eles apontam alguns fatores para o investidor ficar de olho.

Os conflitos entre o presidente Jair Bolsonaro e o Judiciário tem escalonado nas últimas semanas. Na sexta-feira (3), Bolsonaro disse que os atos serão um “ultimato” para aqueles que, segundo ele, descumprem a Constituição. O presidente tem atacado frequentemente os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), acusando-os de exceder os limites constitucionais.

Nesse cenário, as dúvidas sobre a dimensão e o teor dos protestos já estão no radar do mercado há alguns dias. “Sempre que tem um evento em que existem mais incertezas do que riscos (porque incerteza seria um risco que você não consegue medir, e o risco você consegue medir), você tem esse comportamento do mercado, que vem sendo precificado de forma estressada. Isso já está no preço e vai se intensificando”, comenta Thomas Giuberti, sócio da Golden Investimentos. 

Mesmo assim, a percepção é de que, ao menos por enquanto, as manifestações de 7 de setembro não devem ter um impacto tão direto sobre o mercado. 

“É um não-evento para preços de mercado”, define Enrico Cozzolino, analista da Levante Ideias de Investimentos. “O mercado está querendo antecipar, cauteloso, mas não necessariamente acredito que, em virtude da manifestação, possa ocorrer uma queda de mercado. Estou cauteloso com a manifestação, mas não pessimista pensando em preços de ativos de bolsa”, diz. 

‘Radicalização’ do discurso?

imagem05-09-2021-11-09-2310/06/2021 REUTERS/Adriano Machado

Sobre receios de manifestações em defesa de pautas chamadas “disruptivas”, como o fechamento do Congresso ou do próprio STF (que seriam medidas inconstitucionais e antidemocráticas, assim como pedidos de intervenção militar), Bruno Komura, estrategista de renda variável da Ouro Preto Investimentos, acredita que está havendo “um exagero tanto na percepção de risco quanto na aversão a risco nos mercado”

“O Bolsonaro começou com um discurso bastante alinhado com a base dele, sendo bastante radical, e conforme o tempo foi passando ele moderou um pouco. Hoje, ele voltou a aumentar a tensão, para tentar sinalizar mais para a base dele para polarizar” , analisa ele.

“O centrão não vai embarcar nesse tipo de movimento. Então, com certeza a radicalização do discurso é um ponto bastante importante, mas é muito mais para unir e conseguir manter a base dele bem forte e se preparar para as eleições do ano que vem”, complementa Komura. 

Capital político X cenário fiscal

O mercado estará de olho no tamanho das manifestações de 7 de setembro como termômetro da popularidade de Bolsonaro. Isso porque, com mais apoio, o presidente supostamente teria mais facilidade para aprovar reformas econômicas e privatizações no Congresso que não andaram até agora, por exemplo. A preocupação, portanto, segue com foco na questão fiscal.

“A primeira questão é que, para o mercado financeiro, quando se fala de política, tudo se resume a direcionamento fiscal orçamentário e capital político”, diz Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo. 

“Um movimento político deste tamanho pode alavancar o capital político e melhorar a percepção de que ele (Bolsonaro) ainda tem uma força significativa perante o seu eleitorado e que isso pode trazer relevância no que é pleiteado pelo Planalto hoje, que são as aprovações e privatizações também, que a gente sabe que não estão andando tão bem porque o capital político e as amarras com o centrão acabaram se esvaindo nos últimos tempo por conta da CPI, pela imagem do governo, mas também pelo trato na gestão da pandemia da covid”, diz Franchini. 

Ainda no campo fiscal, o tamanho das manifestações também levanta outra questão para o mercado: se os movimentos demonstrarem perda de apoio, o governo pode lançar mão de aumento de gastos para tentar elevar sua popularidade.

Nesse sentido, Eduardo Perez, analista de investimentos do Nu invest diz que “um eventual novo anúncio de propostas populistas visando eleições e que comprometam a responsabilidade fiscal” poderia, sim, impactar os mercados, “com foco maior no câmbio e nos juros futuros”. Mas, de qualquer maneira, ele acredita que as manifestações devem ter “pouco impacto” sobre o mercado nos próximos dias. 

Cozzolino, analista da Levante, tem opinião semelhante. “No fundamento, a gente viu as empresas entregando bons resultados num cenário desafiador, numa saída de um ano de coronavírus. O descolamento do preço e o fundamento tem um limite para ocorrer e eu não acho que as manifestações de 7 de setembro vão afetar isso”, diz ele. 

Quem o mercado prefere?

As manifestações acontecem em um ambiente político conturbado, com muitos analistas do mercado financeiro apontando uma “antecipação” da discussão eleitoral. Pesquisas de intenção de voto têm apontado uma polarização na disputa do ano que vem entre Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). 

Apesar de as expectativas sobre as eleições impactarem os investimentos, Franchini, da Monte Bravo, aponta que “o mercado não se define bandeira A ou bandeira B. Ele quer que, qualquer bandeira que se assuma, que ela consiga fazer um bom trabalho e ele, mercado, se beneficie disso. Então, no fim do dia é isso. O mercado quer saber onde ele ganha mais dinheiro e onde você tem menos possibilidade de problemas no futuro” .

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