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Concorrente da B3 é ‘possível’, mas precisa ter diferencial, dizem analistas

Em relatório divulgado no começo do mês, o JP Morgan mencionou que a XP (XP) estaria trabalhando na possibilidade de criar uma nova bolsa de valores. Isso por causa da renúncia do principal executivo do Banco XP, José Berenguer, e sua substituição por João Menin, CEO do Banco Inter (BIDI11).

De acordo com os analistas do JP Morgan, a saída do executivo poderia abrir caminho para a XP ter o seu próprio ambiente de negociações, sem correr o risco do chamado conflito de interesses.

Além disso, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) autorizou a Mark2Market (M2M), plataforma de gestão de operações financeiras para empresas, a ter atuação de central depositária de títulos – recebíveis agrícolas, em um primeiro momento, mas, em um futuro, a atuação poderá incluir também ações.

Neste cenário, ganharam força no mercado especulações sobre uma eventual criação de uma concorrente da bolsa de valores brasileira.

Nova bolsa de valores no Brasil?

Para Bruno Komura, estrategista de renda variável da Ouro Preto Investimentos, é factível a chegada de uma nova bolsa de valores no país. Apesar disso, ele ressalta que este projeto tem que ser muito bem pensado e planejado, pois, durante muito tempo, já foram vistas várias ideias de criação de uma segunda bolsa como alternativa para a brasileira, mas que acabaram não acontecendo.

Para o estrategista, uma nova bolsa pode dar certo, mas ela poderia ter bastante prejuízo e enfrentaria problemas no curto prazo. Já em um horizonte muito mais longo, em sua avaliação, ela conseguiria ser competitiva com a B3.

Komura chama a atenção para dois pontos neste processo. O primeiro, segundo ele, seria a adesão do mercado, pois precisaria ter participantes em uma boa quantidade para comprar e vender ativos, gerando volume nessa nova bolsa.

Outro ponto, segundo Komura, seria a questão de viabilidade no “pós-operação“. O estrategista explica que o que agrega muito valor para uma bolsa é o momento depois da operação. “Tem toda a questão de conciliação, de casar ordens de compra e venda e garantir que tudo seja certo e de forma segura. Toda essa parte acaba ficando nas câmaras de liquidação. E uma nova bolsa terá que vencer essa questão, o que acaba sendo bastante custoso”, destaca.

O estrategista da Ouro Preto Investimentos defende ainda que uma nova bolsa não chega a ser uma ameaça para a B3 (B3SA3) e ela precisará ter algum diferencial, pois, se for bem parecida, vai competir por custo e só vai gerar menor lucratividade para as duas bolsas. “A B3 cobra taxas e pode ser que a taxa da nova bolsa seja menor, mas, se cobrá-la mais baixa, com um serviço parecido, haverá lucratividade menor no final das contas”, explica.

Para ele, se essa ideia está sendo considerada pela XP, ela tem um pouco mais de chance de dar certo. “A XP já tem toda a questão digital e tecnológica bastante robusta. Ela conhece bem o mercado, detém uma boa parcela dele, então, faz bastante sentido”, diz.

Komura aponta, no entanto, que a XP está com muitos projetos, enfrentando concorrência muito grande do BTG, então, pensar em um projeto grande, dessa magnitude, de criar um nova bolsa, pode acabar tirando o foco da XP e isso não seria algo bom para ela no médio prazo.

Monopólio da B3

O analistas Filipe Ferreira, da ComDinheiro, afirma que não é fácil abrir uma nova bolsa. E que, por isso, acaba havendo um monopólio natural. Para ele, a possibilidade de a bolsa funcionar como monopólio é melhor. “O monopólio, às vezes, funciona melhor em função dos custos envolvidos e a bolsa tem um pouco disso, em função das suas características de negócio”, diz.

Para Ferreira, se dividir o número de investidores em bolsa em duas delas, a tendência é mais atrapalhar um negócio do que engrenar. Ele relembra que é como se via em um cenário anterior, quando o país tinha bolsa em São Paulo e no Rio de Janeiro e ficava um pouco de negociação em cada uma delas, não tendo um volume de negociação expressivo, na avaliação dele.

O analista também defende que um bom caminho para uma nova bolsa se consolidar no mercado brasileiro, em meio ao cenário de ganho de novos investidores e novas empresas captando via mercado de capitais, seria não haver uma competição direta.

“Seria interessante uma nova bolsa para dar vazão aos pontos que a B3 não consegue cumprir. Muito melhor seria pegar as lacunas que não são preenchidas por ela. Tem um mercado tremendo para isso. Competir dentro do jogo da bolsa brasileira é difícil, pois ela já se consolidou”, defende.

Por que ainda não há uma rival para a B3

Para Komura, o fato de não existir atualmente uma outra bolsa de valores brasileira está ligado à questão das câmaras de liquidação e compensação. Segundo ele, essa é uma das principais barreiras. Komura explica que a questão de liquidação é uma barreira muito grande, porém, com o avanço tecnológico, ela pode acabar se tornando mais fácil e menos custosa para uma nova bolsa.

Já para Ferreira, é possível a iniciativa de se abrir uma nova bolsa, mas a dificuldade dela existir pode estar na questão de se começar do zero e ter que concorrer diretamente com o monopólio que é a B3, o que se torna difícil, em sua avaliação.

Para o analista, se uma nova bolsa surgir, o mais provável é que ela não venha para ser uma concorrente direta, mas, sim, começar a buscar atuar em campos nos quais a B3 não opera, onde há diferencial criando seu próprio ecossistema e não “batendo de frente” com a B3.

Uma nova bolsa pode ser positiva para o mercado?

O estrategista da Ouro Preto Investimentos acredita ser bastante saudável a chegada de uma concorrente para a B3 no mercado financeiro brasileiro. Ele explica que, para o investidor, a lucratividade pode cair, mas, para o mercado em geral, é positivo e essa competição acaba sendo saudável porque força inovações e diminuis custos para os níveis que se acabam observando no exterior.

Komura acrescenta que a bolsa brasileira ganhou muitos investidores recentemente e é preciso acompanhar se essa tendência vai continuar. Para ele, o número de contas abertas na B3 hoje é pequeno (pouco mais de 3,5 milhões até maio), então haveria espaço e potencial para duas bolsas ganharem mercado sem ter que disputar tanto no começo.

“Com uma nova bolsa, tem oportunidade de atrair mais clientes. Acho que isso não depende muito do surgimento, também é preciso trabalhar do lado do investidor. E é algo muito mais lento e difícil. A B3 já tem tentado de várias formas promover educação financeira, mas só acelerou agora e a pandemia ajudou um pouco”, ressalta.

Ferreira explica que se vier um player local, por um lado, seria positivo, já que vai explorar lacunas do mercado, ajudando-o a se incentivar, o que não seria negativo para a B3. Por outro lado, diz o analista, a outra possibilidade seria uma bolsa estrangeira entrar no Brasil e aproveitar a vantagem de custo. Porém, não é o que está no radar, mas seria impactante para a B3.

As ações da B3 podem ser afetadas com uma nova bolsa?

Com a possibilidade da chegada de uma concorrente para a bolsa de valores brasileira, o JP Morgan rebaixou a recomendação de “compra” para “neutro” para as ações da B3 (B3SA3), apontando riscos relacionados à competição e desaceleração do volume de negociações.

Na semana encerrada no dia 11 de junho, as ações B3SA3 acumularam queda de 6,43%. No mês, a queda acumulada dos papéis da B3 é de 8,03% e, no ano, 19,64%. Confira o gráfico a seguir:

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Para Komura, a ação da B3 sofreu muito recentemente com este noticiário. Ele explica que sempre que tem ameaça de um novo competidor, isso acaba interferindo nas ações da empresa, mas não justifica a queda que o papel sofreu nos últimos dias.

Para o estrategista de renda variável da Ouro Preto Investimentos, a queda que aconteceu nas ultimas duas semanas foi um pouco exagerada e daria para o investidor se posicionar, pensando que parte dessa desvalorização será recuperada e a B3 continuará mostrando números para se sustentar.

“A queda pode ser uma oportunidade, pois não é porque se surgir um competidor novo que a B3 vai continuar fazendo a mesma coisa. Com certeza vai tomar medidas para se tornar mais competitiva para justificar atratividade”, acredita Komura.  

O analista da ComDinheiro também defende que rumores de uma nova bolsa afetaram o preço da ação da B3 mais do que deveria. “Tem um pouco de noticiário, mas tem que considerar que as ações vinham de um bom desempenho. Alguns investidores podem estar só observando esse momento e aproveitando para fazer sua realização de ganho, mas também tem grande impacto de precificação. Não acredito em um consenso dessa desvalorização por causa de uma nova entrante”.

Para Ferreira, o mercado acabou precificando alto demais essa especulação e agora reajusta o preço. O analista diz ainda que nem sempre uma queda dos papeis deixa uma ação barata. “Existem diversas variáveis para a B3 perder valor com a possibilidade da chegada de uma concorrente. É um passo de perna muito longo para confiar nessa conclusão”, alerta.

Em relação às demais ações das empresas listadas na bolsa, Komura acredita que não teria nenhum tipo de prejuízo, mas, sim, traria mais benéficos para essas ações, pois teria potencial de aumentar a liquidez.

“Se tem negociação em duas bolsas, tem a chance de aumentar a liquidez. Se uma ação é negociada nas duas bolsas, elas teriam que ter o mesmo preço, mas pode ter um investidor muito grande fazendo uma venda na B3 e, com isso, puxar os preços para baixo. E aí, na outra bolsa, pode demorar 1 ou 2 segundos para refletir esse tipo de oscilação. Se abre margens para ter arbitragem, se compra mais barato e vende no mais caro até que o preço fique igual”, diz Komura.

Investidor deve ter cautela, diz analista

Eduardo Perez, analista de investimentos da Easynvest By Nubank, recomenda que, em cenários com este, o investidor tenha muita calma e não aja por impulso e tenha em mente seu objetivo. Se for receber dividendos, Perez recomenda a continuidade do aporte. Ele lembra ainda que, de um lado, tem um fator de risco novo, mas, por outro lado, os fundamentos da empresa continuam.

 “A B3 é uma empresa bem sólida, bem conhecida no mercado. A única coisa é que agora ela terá uma possível concorrente. Não será em um curtíssimo prazo. Esse tipo de operação para começar a rodar demora de 6 meses a um ano. E, mesmo que a gente tenha uma nova bolsa, precisa da confiança do mercado e liquidez para que ela chegue a patamares que vão fazer diferença muito grande no  resultado operacional da B3. Claro que já é um risco que acaba sendo precificado”, diz.

Empresas listadas na B3 migrariam para uma nova bolsa?

Caso chegue uma nova bolsa de valores ao mercado brasileiro, Komura explica que, em um primeiro momento faz sentido as empresas que já são listadas terem receio de ter suas ações negociadas nela por questão da segurança.

“A partir do momento que essa segunda bolsa mostrar que os processos são bons, estão sendo feitos de forma correta, sem problemas, a adesão pode aumentar. Seria numa ideia exponencial, em um começo mais lento até os participantes entenderem o que está acontecendo, se os benefícios compensam”, diz.

Já no caso das empresas que ainda não são listadas em bolsa, este cenário, segundo Komura, em um primeiro momento, não teria relação direta de estímulo para abertura de capital.

Ferreira também defende que não haveria um movimento natural das empresas já listadas na B3 para a nova bolsa de valores. Para ele, as ações que já estão na B3 com um bom movimento, não têm motivo para trocar de bolsa a essa altura.

“No longo prazo, poderia acontecer, se essa nova bolsa dominar o mercado. Se ela se consolidar e passar a B3, e se tornar um monopólio, é possível. A própria B3 fez isso. A Bovepa era secundária, ela foi se consolidando até passar a bolsa do Rio de Janeiro e comprá-la. Pensando em um horizonte muito longo, esse tipo de movimento poderia acontecer”, avalia.

Concorrência para a B3 no curto prazo?

O surgimento de uma nova bolsa de valores em um curto e médio prazo é difícil de acontecer, na avaliação de Komura e Ferreira. Já no longo prazo, segundo os analistas, pode ser viável.

Ferreira lembra que se escuta sobre a possiblidade de uma nova bolsa de valores há muito tempo. E, na prática, nunca aconteceu.

“Acredito que, em curto prazo, não vai acontecer. No médio prazo, só vai ser possível por alguém que já está no mercado, seja vindo uma outra bolsa estrangeira ou outro player local que já conheça o mercado de ações, abrindo essa vertente, o que também não é algo do dia para a noite, se leva um tempo, é um caminho complexo. Não dá para dizer que será em um curto prazo”, finaliza Ferreira.

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