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Financiamento estudantil: como funciona e quando vale a pena fazer?

O ensino superior é, muitas vezes, um caminho para melhores condições financeiras e determinado prestígio social. Entretanto, num país onde a renda média per capita foi de R$ 995 nos três primeiros meses de 2021, de acordo com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), são poucos os que podem arcar com as mensalidades de uma graduação. Muita gente precisa recorrer ao crédito, como o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies). Mas vale a pena optar por essa alternativa?

Para esclarecer essa questão, o InvestNews entrevistou o planejador financeiro Guilherme Baia, que contou seu ponto de vista sobre o programa estudantil. Porém, antes de responder se o financiamento é vantajoso ou não, primeiro é preciso entender o que é o Fies e como funciona o programa.

Continue a leitura para descobrir tudo sobre o assunto.  

Fies: o que é e como funciona?

O Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies) é um programa de financiamento do Governo Federal que subsidia cursos de nível superior para estudantes de baixa renda de todo o país. O Fies, de acordo com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (Fnde), é dividido em três modalidades, da seguinte forma:

  • Modalidade 1: financiamento com juro zero para estudantes que tiverem uma renda per capita mensal familiar de até três salários mínimos.
  • Modalidade 2: financiamento destinado às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com recursos para os estudantes que tiverem uma renda per capita mensal familiar de até cinco salários mínimos.
  • Modalidade 3: destinada a todas as regiões do Brasil e, assim como a modalidade 2, é encaminhada aos estudantes que tiverem uma renda per capita mensal familiar de até cinco salários mínimos.

Quem pode recorrer ao Fies?

Para solicitar o crédito estudantil, é necessário atender a alguns requisitos, como ter participado do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) a partir da edição de 2010 e obtido nota igual ou superior a 450 pontos em cada uma das áreas avaliadas, além de também ter alcançado uma pontuação superior a 0 na redação; e, como explicado anteriormente sobre as modalidades do programa, é necessário possuir renda mensal de no máximo cinco salários mínimos. 

Mas e aí: vale a pena fazer o Fies?

Como já mencionado, há três modalidades do Fies: a primeira com juros zero e a segunda e terceira com juros que são estipulados pelo banco a cada edição do programa – a taxa pré-fixada costuma ser de 3% a 6,5% ao ano. Portanto, para quem usufruir das duas últimas modalidades, terá de pagar o preço das mensalidades e os juros do financiamento.

Além disso, independente da modalidade, o estudante também deverá arcar com encargo operacional fixado em contrato. Isto é, pagar uma taxa de administração, que costuma custar R$ 50 por trimestre, diretamente à instituição financeira que ficar com a atribuição de agente operador.

Por último, outro custo que o universitário terá é o seguro vida, que é um item obrigatório durante a realização do curso. No entanto, não há uma obrigatoriedade de fazer a contratação do seguro em uma instituição específica, então o valor poderá variar de acordo com o prestador de serviço escolhido.

Então, considerando todos esses custos, do ponto de vista de Guilherme, ainda assim vale a pena fazer o financiamento, independentemente da modalidade. “Entendo que compensa… a rigor, o aluno ganha o acesso a educação que, em tese, ele não teria se ele não fizesse a prestação. E, ainda que se tenha uma conta futura, ele será compensado com oportunidade de trabalho”, comenta.

Mas, olhando especificamente para a segunda e terceira modalidade, que contam com os juros anuais, Baia também lembra que é importante fazer o cálculo de quanto sairá o financiamento antes de fechar o contrato. Por isso, o InvestNews, junto ao planejador financeiro, fez uma simulação de quanto ficaria o financiamento.

Simulando o custo do Fies

Imagine que um curso de graduação em jornalismo, por exemplo, tivesse a mensalidade de R$ 1.000 – sem considerar possíveis aumentos – e durasse 8 semestres. Isso totalizaria um custo de R$ 48 mil.

Depois, pense que os juros poderiam ser, por exemplo, de 6,5% ao ano, então o valor total do financiamento iria para R$ 51.120 – mas vale destacar que, com o possível aumento das mensalidades ao longo do tempo, esse valor poderia ficar ainda maior.

É importante salientar que, como determinado nas últimas atualizações do programa, o saldo devedor precisa ser pago, desde que o usuário possua renda, a partir do primeiro mês após a conclusão do curso. Além disso, o número de parcelas também depende da capacidade de pagamento do estudante, mas o prazo máximo de quitação é de 14 anos.

Mas, como já comentado, não é só o custo do financiamento que conta. Durante o curso, o estudante tem de arcar com outras despesas e elas devem estar no planejamento.

Pense que entraria o encargo operacional durante todo o período da graduação, com o valor de R$ 50 por trimestre. Então, o custo deste item seria de R$ 800.

E, por último, conte que também haveria o preço do seguro vida, que pode custar, por exemplo, R$ 40 por mês, o que ficaria no total R$ 1.920 durante os quatro anos.

Ou seja, o estudante teria que pagar R$ 51.120 de financiamento e gastaria outros R$ 2.720 durante o curso.

É uma aposta que essa pessoa precisa fazer em termos de carreira…”, explica Guilherme, acrescentando que “(…) a pessoa precisa entender que está recebendo um investimento para ela própria e que precisa remunerar o investidor. E como? Investindo na própria carreira”.

O planejador financeiro também aponta que a melhor maneira de se organizar para pagar o financiamento é criando uma programação. Ele aconselha que, na possibilidade de gerar alguma renda extra durante o período de graduação, o estudante faça algum investimento, ainda que muito conservador, porque os juros sobre a aplicação seriam melhores do que o ônus do pagamento do financiamento e poderiam ser mais uma forma de quitar a dívida.

O que diz quem já usou o Fies?

Douglas Figueiredo, estudante de jornalismo da Universidade Paulista (UNIP), conseguiu o financiamento estudantil no ano de 2019, mas contou que não era dessa maneira que gostaria de ingressar no ensino superior. “O Fies foi a última alternativa que eu tive para fazer faculdade”, conta o estudante.

Inicialmente, Douglas tentou outros programas do Governo Federal, como o Sisu e o ProUni, mas não obteve aprovação devido às altas notas de corte. “Eu acho que todo mundo que recorre ao Fies já tentou todas as outras alternativas e não deu certo”, acrescenta.

Por outro lado, Douglas também relata que apesar desta decepção, a sensação de aprovação do financiamento foi de alívio, porque mesmo tendo dificuldades e incertezas sobre a despesa, ele pôde dar continuidade aos estudos.

Porém, hoje em dia o estudante conta que tem passado maus bocados com questões administrativas entre o banco financiador e a universidade.

Segundo Figueiredo, o financiamento do curso é parcial, então ele deve arcar com a metade das mensalidades. Contudo, o pagamento que ele deveria fazer para a universidade por sua própria conta, está sendo, na verdade, direcionado para o banco, para que ele seja o intermediador das prestações de contas.

Só que, na última mensalidade, o banco disse ter passado o valor integral para a universidade – ou seja, 50% da quantia do financiamento e os outros 50% do montante desembolsado por Douglas –, mas a UNIP garantiu não ter recebido o valor total, apenas parte dele.

Para piorar, de acordo com Figueiredo, ambas organizações apresentaram comprovantes com valores diferentes. No fim das contas, obviamente, isso tudo prejudicou o estudante, porque ele precisou pagar a diferença para poder fazer a rematrícula do curso.

“Se eu pudesse voltar atrás, eu teria feito um planejamento melhor e não teria optado pelo Fies”, declarou Douglas, referindo-se aos problemas administrativos e preocupado com o pagamento atual e futuro. No mais, o estudante segue cursando jornalismo e espera conseguir resolver essa questão administrativa.

Como se inscrever no FIES?

Para se inscrever no programa, além de ter os requisitos necessários, o candidato também precisa acompanhar as datas dos editais que são abertos ao longo do ano.

Quando um edital estiver aberto, o interessado deve se inscrever e encaminhar todas as informações necessárias. É só acessar o sistema de inscrição em fies.mec.gov.br, clicar em “Minha Inscrição” e em seguida em “Fazer Cadastro”.

Por último, o candidato deve aguardar o retorno – e, em caso positivo, seguir com o envio dos documentos solicitados.

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