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Investir em bolsa (só que de grife) pode gerar altos retornos

Embora não sejam novidade, os investimentos alternativos – aqueles que não fazem parte de categorias convencionais do mercado financeiro – podem render bons retornos aos investidores. Um exemplo é a aplicação em artigos de luxo, como as bolsas de grife, que, conforme apontam pesquisas, podem valorizar muito no curto prazo.

De acordo com relatório da Sotheby’s, uma das maiores casas de leilão do mundo, o preço de uma bolsa do modelo Medium Classic Flap, da Chanel, subiu de cerca de US$ 4.500 para US$ 7.800 nos últimos 5 anos. Ou seja, teve uma valorização 73% no período.

Outro dado curioso é que, segundo o Art Market Research, as vendas totais de bolsas vintage de luxo das quatro casas de leilão mais importantes aumentaram em um terço em 2020, na comparação com 2019, e a tendência de alta ainda continuou no primeiro semestre de 2021. Isto é, estes artigos estão cada vez mais cobiçados, o que pode gerar ainda mais valorização.

O que diz quem investe em bolsas de grife?

Beatrice Stopa, criadora de conteúdo nas redes sociais, contou em entrevista ao InvestNews que sempre teve interesse em itens de moda, mas que apenas começou a investir em bolsas de grife quando conquistou uma boa posição em sua carreira profissional. “Antes, eu não olhava para itens de luxo porque não fazia sentido no momento para mim, tanto financeiramente quanto lifestyle. Até que mudei de emprego e resolvi que iria me dar uma bolsa”, explicou a influencer.

A partir daí, Stopa disse que começou a adquirir os artigos com mais frequência. No entanto, hoje em dia as compras estão mais difíceis, pois os itens estão ainda mais caros devido à valorização das bolsas no mercado e do dólar sobre o real. A moeda norte-americana estava cotada em torno de R$ 5,60 no dia 5 de novembro de 2021, uma alta acumulada de 7,5%.

Porém, a alta do dólar não foi tão ruim para Beatrice, já que ela também percebeu uma certa apreciação no valor de sua coleção de bolsas. Segundo a criadora de conteúdo, ela adquiriu o modelo Bumbag, da Louis Vuitton, por R$ 6.500 em 2019, e hoje a mesma bolsa custa R$ 10.400. Ou seja, o item de grife valorizou 60%.

Outro exemplo é a GG Marmont super mini, da Gucci, comprada por R$ 3.400 em 2018, que atualmente tem o preço de R$ 6.660 – uma alta de 95%. E mais um caso surpreendente é a bolsa tiracolo Kate com tassel, do Yves Saint Laurent (YSL), adquirida pela influencer na Friends & Family, por R$ 1.500 em 2017, e que hoje está avaliada em R$ 13.560 – uma valorização de 804% no período.

imagem11-11-2021-11-11-24Bolsa decorada de insetos, bucket GG Marmont mini e GG Marmont super mini

Stopa ainda acrescenta que nenhuma depreciou. Segundo ela, todas foram um investimento que, se passado à frente, trarão um retorno financeiro. E para quem quer começar a investir em bolsas de grife, ela indica que “primeiro de tudo é necessário pensar se faz sentido ter, porque às vezes você vai ter medo de usar…”, e que é importante “investir em peças que você sabe que vão estar ali, que combinam com você, que são atemporais…”

Em contrapartida, a influencer sugere que “quem tem um perfil mais descolado, não está apegado muito ao dinheiro e quer desbravar, pode olhar para bolsas mais ligadas a tendências.”

Por último, Beatrice orienta ainda que, assim como ela, as interessadas façam muitas pesquisas antes das compras. Que visitem outlets das marcas e tentem entrar para as listas vip das lojas – que disparam campanhas de ofertas para os mailings.

Um olhar de especialista e colecionadora

Manu Berger, especialista em mercado de luxo e colecionadora de bolsas de grife, também contou ao InvestNews sua experiência como investidora dos artigos. Inicialmente, Berger explicou que sempre foi admiradora do mercado de luxo, por isso, estudou por um longo tempo sobre o tema e, depois, passou a atuar na área.

Ao se especializar, Manu confessou que mudou seu olhar sobre o consumo desses produtos. Ela disse que, ao conhecer o processo de produção de bolsas da Gucci – desde a escolha do couro, recorte e costura –, conseguiu entender com mais clareza o valor dos artigos. Isso em razão de que todos os detalhes das bolsas são pensados e produzidos com muito cuidado. Berger contou que, depois dessa experiência, em condições, pagaria o valor que fosse pelas bolsas.

A colecionadora também falou que já vendeu algumas peças e, apesar do retorno, se arrependeu do negócio. Para Manu, “tudo tem uma história”. Ela não compra uma bolsa apenas para colocar uma carteira dentro, mas porque existe um momento especial que a faz adquirir o artigo e, assim, criar uma relação emocional com a peça. Portanto, pessoalmente para Berger, não é um tipo de investimento que ela procura ter um avanço financeiro.

De todo modo, a especialista ainda reconhece a valorização das peças. Um exemplo é a bolsa Eden PM Monogram Bordeaux, da Louis Vuitton, adquirida pela colecionadora por R$ 3.725,00 em 2013, que hoje está avaliada em R$ 10.300,00. E outro caso impressionante é do modelo Birkin laranja de ferragem prata tamanho 35, da Hermès, que Manu comprou por € 8 mil em 2012 – o que, convertido na época, custava aproximadamente R$ 20 mil – e que, hoje, custa em torno de R$ 84 mil, uma valorização de 320%.

imagem11-11-2021-11-11-24Manu Berger, especialista em mercado de luxo e colecionadora de bolsas de grife. Bolsa Birkin laranja de ferragem prata tamanho 35, que hoje custa em torno de R$ 84 mil.

Para quem quer começar a investir em itens de luxo, Berger menciona que o ponto de partida é o conhecimento. “Pesquise sobre essas bolsas… Descubra quais são essas marcas, o que elas fazem. Qual é o tipo de valorização e que tipo de peça valoriza”, aconselha a especialista. “Busque ter esse tipo de informação para ter assertividade no investimento”, conclui.  

Afinal, investir em bolsas de grife é realmente um bom negócio?

Para a Valeska Nakad, professora de moda da Belas Artes, investir em bolsas de grife pode ser um bom negócio, principalmente no caso de compra de peças raras ou de edições limitas.

Ela conta que a Louis Vuitton faz eventos anuais e convida apenas algumas clientes, e não necessariamente aquelas que mais compram, mas quem a loja acredita que tem o perfil ideal para usar as peças. Então, como somente um público pode adquirir os artigos, posteriormente, eles têm mais valor ainda. “Quando essas pessoas colocam [as bolsas] no mercado à venda, isso pode virar um leilão”, explica a professora.

Além disso, Nakad acrescenta que quem olha para esse mercado seminovo, a peça costuma valorizar se está em bom estado e, principalmente, se tem o certificado de originalidade. Isso em virtude do aumento da pirataria.

Valeska também explica a razão dessas bolsas custarem tanto. Assim como dito por Berger, ela conta que é todo um trabalho manual e exclusivo, então a peça também tem um valor além da marca, que é um tanto simbólico. Ela acrescenta que a compra no Brasil é ainda mais complexa devido ao fato de o dólar estar valendo quase seis vezes mais que o real.

Por outro lado, além do investimento como retorno, a professora menciona que para quem é usuária “está investindo nos benefícios emocionais daquele produto… É um investimento nos benefícios de autoexpressão.”

Na mesma linha, Amnon Armoni, professor de Administração com especialidade em mercado de luxo da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), explica que, para entender o valor desse investimento, inicialmente é necessário compreender o que faz um artigo ser de luxo. Para ele, “os produtos de luxo não são produtos, eles são uma ideia”, eles oferecem uma qualidade extrema, que busca perfeição. Além de que esses artigos normalmente oferecem exclusividade.

Armoni ainda acrescenta que os produtos de luxo precisam ter tradição – item que gera valor às marcas –, mas não só isso, também devem trazer inovação. “As marcas de luxo são o que fizeram e o que continuarão fazendo, porém, também são contemporâneas e têm a obrigação de olhar com um farol para a indústria.”

Portanto, de acordo com o professor, são esses fatos que dão tanta grandeza a essa categoria de artigos. Amnon também aponta que as marcas de luxo se engrandecem a partir de estratégias. Ele explica que uma delas, assim como dito por Nakad, é a escassez planejada da oferta, o que agrega ainda mais valor as bolsas quando vendidas.

Formas de adquirir bolsas de grife

Para aqueles que ficaram interessados em fazer o investimento, é hora de começar a buscar as formas de adquirir as bolsas. Os investidores que forem mais conservadores e preferirem apenas peças novas poderão comprar diretamente nas lojas das marcas, mas os investidores que são moderados ou arrojados poderão se aventurar em brechós de luxo ou até mesmo em leilões.

Aos desbravadores dos últimos perfis de investidor, nesta quinta-feira (11), por exemplo, a Sotheby’s realiza um leilão de bolsas e assessórios com cerca de 70 artigos – entre eles, bolsas da Hermès, Chanel e Louis Vuitton.