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Setores de defesa e de ataque: montar carteira pode ter estratégia de futebol

Para um investidor iniciante no mercado de ações, fazer suas escolhas e montar uma carteira compatível ao seu perfil e objetivo pode ser um desafio. Afinal, atualmente são 390 empresas listadas na bolsa, divididas em 11 setores, 41 subsetores e 80 segmentos. Por isso, especialistas ouvidos pelo InvestNews apontam que é preciso traçar uma estratégia. E ela pode ser semelhante à de um jogo de futebol.

Em um comparativo como esse, a intenção é mostrar desde os setores que possam ser mais defensivos, de proteção para a carteira de ações, aos mais arriscados, com potencial valorização e ganhos.

Confira abaixo a escalação dos setores, de acordo com sugestões feita pelos analistas Filipe Ferreira, da ComDinheiro, e Bruna Amalcaburio, da Top Gain:

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Goleiro

Para esta posição, os analistas classificaram o setor que, na avaliação deles, não pode faltar na carteira de ações, fazendo alusão à função de um goleiro. Dessa forma, foi recomendado ações de empresas do setor de utilidade pública, como as de saneamento e água, por exemplo. Segundo Ferreira, ações deste setor, considerado defensivo, precisam fazer parte da carteira.

Zagueiro

Para esta posição, os analistas associam os setores de proteção/defesa de uma carteira, assim como é a função de um zagueiro em campo. Dessa forma, foram sugeridos por Ferreira e Amalcaburio empresas que pagam bons dividendos e, dentre elas, destaque para o setor de energia elétrica. Segundo Bruna Amalcaburio, as empresas de utilidade pública têm grandes contratos, sofrem menos volatilidade e possuem receitas pouco oscilante.

Lateral

Para esta posição, os analistas relacionaram um setor que se mostra defensivo, mas com características de “armação”, que podem surpreender, assim como é a função de um jogador que tenha a posição de lateral em campo.

Desta forma, o setor financeiro foi destacado para esta posição, por ser um setor considerado pelos analistas como defensivo, mas já com mais incertezas. Ferreira explica que é um setor que pode colaborar na defesa da carteira, além de ser lucrativo – ou seja, diminuir risco, mas que tem possibilidade de, eventualmente, trazer surpresas.

Meio-campo

Para esta posição, os analistas optaram por setores que podem ser classificados como intermediários na carteira, entre defesa e ataque, que têm maior diversidade de habilidade, mas com um pouco mais de risco e agressividade, aproveitando seus momentos mais pontualmente, assim como acontece com os jogadores meio-campistas. Desta forma, empresas dos setores de commodities e varejo foram apontadas com este perfil pelos analistas.

Segundo Ferreira, ações do setor de varejo já foram bastante descontadas e podem se aproveitar do momento do mercado. Já no caso das commodities, ele explica que é um setor que cresce pela demanda. Por isso, gera um risco de tomada de inversão e, em algumas ocasiões, podem causar perdas, já que não é possível antever prejuízo, mas também é um setor que pode se beneficiar dos ciclos de alta sem previsão. Ele ainda destaca que é um setor que cresce no longo prazo devido à sua boa eficiência.

Ataque

Nesta posição, os analistas associaram setores mais arriscados, que estão “prontos para fazer o gol”. Segundo eles, são setores para o investidor ganhar rendimento. Assim, os setores de tecnologia e viagem e lazer foram destacados para esta posição, por serem considerados por eles como potencial de valorização, e não para a defesa de uma carteira.

“Não são empresas com característica defensiva. Se o investidor precisar dela para defender a carteira, ele vai se decepcionar. Estes setores são mais para esticar o ganho”, diz Ferreira.

Banco de reservas

Foram escolhidos pelos analistas os setores que, eventualmente, podem entrar em algum momento estratégico na carteira ou para substituir por outros segmentos que o investidor já tenha, assim como acontece com os jogadores do banco de reservas. Desta forma, os setores destacados foram: petróleo e gás, telecomunicações e construção civil.

Outras dicas para começar na bolsa

Com a taxa de juros em patamares baixos e a rentabilidade da renda fixa menos atrativa, o número de pessoas físicas que investem na bolsa brasileira subiu 92% em 2020. Hoje, já são mais de 3,7 milhões de investidores na B3.

Mas se, por um lado, a bolsa brasileira mostrou-se mais atrativa, por outro muitos dos investidores que chegaram ao mercado financeiro enfrentaram um dos momentos mais conturbados da bolsa dos últimos anos.

Bruna Amalcaburio, da Top Gain, recomenda que, antes de investir em renda variável, a pessoa tenha um valor em renda fixa para que consiga equilibrar possíveis riscos. A especialista orienta ainda que o dinheiro usado pelo investidor para comprar ações não seja um valor que ele precisará em breve e que, antes de montar a carteira de ações, ele também tenha uma reserva de emergência já formada.

Com isso definido, Amalcaburio sugere ao investidor interessado em comprar ações observar quais setores ele vai escolher, como eles são afetados pelos movimentos da economia, se têm crescimento, se são seguros. Somente depois é recomendado seguir para análise de setores mais arriscados.

O analista Filipe Ferreira, da ComDinheiro, explica que, antes de comprar uma ação, o investidor iniciante em bolsa deve ter em mente que, ao adquirir o ativo, ele se torna sócio de um projeto, está comprando um pedaço de uma empresa. Além disso, ele também alerta que o investimento em ações precisa ser pensado para o longo prazo, de 10 a 20 anos, para o investidor se programar para se aposentar, por exemplo.

Para quem deseja montar sua primeira carteira de ações, os analistas recomendam 5 dicas. Confira:

1 – Não se prenda a um valor para começar

Para os analistas entrevistados pelo InvestNews, não existe um valor específico para começar uma carteira de ações. De acordo com eles, é possível iniciar com o valor que se tenha disponível para investir e com foco no longo prazo.

Ferreira explica que o investidor não precisa comprar o lote inteiro de ações, que exige desembolsar um valor maior, já que é possível começar pelo mercado fracionário, que é quando se compra apenas parte do lote.

O analista alerta que o montante financeiro que o investidor tiver em mãos não é o mais importante, mas sim o nível de conforto em relação à possível perda desse valor. “O investidor precisa estar relativamente tranquilo sobre possíveis volatilidades. Não tem problema começar com pouco. Fazer curso, assistir alguém fazendo compra de ações, não dá o real treino de operar o próprio dinheiro. Esse treino para suportar volatilidade acontece quando a pessoa investe”, diz.

Ferreira destaca também que, se o investidor é jovem, tem a possibilidade de deixar o dinheiro investido por mais tempo. No caso do investidor que tenha receio de perder dinheiro, o analista recomenda deixar cerca 10% dos investimentos alocado em ações, pois, em caso de prejuízo, não terá perdido muito do patrimônio.

Já Amalcaburio sugere que o investidor siga a regra dos 100, que significa descontar a idade que a pessoa tem do número 100. O que sobrar é o total que o investidor deve expor à renda variável. Por exemplo: se uma pessoa tem 30 anos, ela desconta dos 100 e sobrarão 70. Então, ela pode fazer investimento de até 70% em renda variável.

 “Claro que esses 70% não devem ser investidos somente em uma ação ou setor, mas sim na renda variável como um todo. O percentual parece alto, mas quanto mais jovem a pessoa é, existe um potencial de valorização alto e ela consegue pensar no longo prazo. No caso de uma variação negativa, existe a possibilidade desse jovem recuperar o dinheiro trabalhando”, explica.

2 – Diversifique sua carteira de ações

Quando se fala em carteira de ações, muitas dúvidas surgem em relação à quantidade de ativos ideal. Ferreira diz que é importante ter uma carteira de ações diversificada e, para isso, é interessante o investidor ter de 10 a 13 ações como uma forma de fazer diversificação de setor e suavizar possíveis fatores de riscos que não sejam fáceis de antever.

Por outro lado, uma carteira com muitas ações pode não ser uma estratégia interessante para o investidor iniciante, avalia Ferreira, pois pode acabar fazendo com que ele não consiga acompanhar mais de perto o desempenho dos papéis e empresas.

O analista orienta que o investidor busque empresas com comportamentos diferentes que se beneficiam de eventos distintos. E, com isso, faça acompanhamentos mensais ou trimestrais e rebalanceamento da carteira aos poucos, se for preciso, sempre buscando informações, estudando para, somente depois, optar por ações e setores de mais risco.

Além disso, Ferreira indica que o investidor tenha disciplina para montar a carteira. “Todo vez que receber o salário, antes de gastar, invista na carteira e vai montando periodicamente. Ninguém tem bola de cristal. Vai fazendo aportes recorrentes que, na média, ao longo de anos, as datas dos aportes não vão importar, mas, sim, a disciplina”, diz.

Já na opinião da analista da TopGain, uma carteira diversificada é composta por 15 ativos, mas, para um investidor iniciante, ela considera esta quantidade complexa.

“Eu pensaria em pelo menos 2 ativos para quem está começando a investir em ações. Acho um número interessante, pois os investidores podem procurar um setor que busca valorização e outro que busque dividendo”, sugere Amalcaburio.

3 – Dê tempo ao tempo e mantenha bons hábitos

Os analistas consultados pelo InvestNews recomendam que o investidor iniciante pense no longo prazo e não acredite em promessas de dinheiro fácil em um curto período.

Amalcaburio explica que os investidores iniciantes em ações precisam buscar empresas sólidas, com desempenhos que vão trazer resultados no longo prazo.

“A bolsa é mais dinâmica. É importante que o investidor verifique ao menos uma vez por mês para ver como está a valorização e o desempenho das ações. É importante acompanhar também notícias sobre a empresa”, recomenda.

Além do foco no longo prazo, os analistas recomendam que, para ter uma carteira sustentável, é importante o investidor manter alguns hábitos, como: fazer aporte frequentemente, não perder disciplina, acompanhar resultados, fazer reaplicação de dividendos, ter caixa de oportunidade e não cair na cilada de tentação de ganho rápido.

“É preciso disciplina para aportar, disciplina para não trocar de empresa rapidamente e disciplina para não cair em tentação”, recomenda Ferreira.

4 – Acompanhe de perto as empresas escolhidas

Os balanços das empresas nem sempre são fáceis de compreender, ainda mais para quem é investidor iniciante. Para facilitar, Ferreira orienta que o investidor, ao analisar uma empresa, observe o tempo de existência, se tem histórico, consistência, se está dando lucro e se a companhia opera bem sozinha.

“Se o investidor está começando agora e ainda não consegue fazer uma análise estratégica aprofundada, sugiro empresas lucrativas, e que estão crescendo no mercado, crescendo sua receita, ganhando mercado, que tenha boa organização, gere boas margens e que dão bons resultados em relação a sua receita. Essa combinação torna a carteira mais sólida”, aponta.

Ferreira afirma ainda que receber dividendos pode ser uma excelente garantia ao investidor iniciante, pois se, futuramente, ele precisar de dinheiro, não será necessário vender as ações.

Bruna sugere que, antes de fazer uma análise mais aprofundada dos números, é importante que o investidor entenda ao menos o que a empresa faz, como ela funciona, como ganha dinheiro e com quais estratégias ela poderia ganhar mais.

Com essas informações claras, a analista recomenda que o investidor passe a olhar para outras informações mais detalhadas da empresa. Se a estratégia do investidor é buscar valorização de ação, Bruna sugere que a forma mais simples é observar, por exemplo, o Preço/Lucro (P/L). “Se a empresa tem P/L baixo, ela pode ter potencial de valorização”, diz.

Já no caso de quem busca ações com foco nos dividendos, a analista recomenda que o investidor acompanhe o percentual de dividendos que a empresa paga, que é o dividend yeld.

5 – Fuja de erros

Investir em ações nem sempre é sinônimo de bons retornos. É preciso conhecimento, cuidado, informação e consciência de que perdas podem acontecer.

Correr risco demais sem saber, comprar ações que todos estão falando, adquirir papéis de empresa que se valorizou no passado, investir acreditando que bolsa dá retorno rápido, não se preparar para investir, alocar dinheiro em uma única ação, achar que vai ficar rico da noite para o dia, investir em empresa que não conhece e achar que a ação vai valorizar rapidamente. Esses são os principais erros que o investidor que está montado sua carteira de ações deve evitar, segundo os analistas consultados pelo InvestneNews.

Ferreira ainda orienta atenção com empresas novatas na bolsa, pois, na avaliação dele, no caso dessas companhias é mais difícil identificar se os gestores são bons, se ela está fazendo a “lição de casa”, se dá resultado há muito tempo ou não. “Comprar ações de uma empresa que está entrando agora na bolsa de valores pode ser uma ciliada para o investidor iniciante”, alerta.